quinta-feira, 24 de novembro de 2016 in

O novo sabor do Império

Ao contrário do que o mundo esperava (sempre julguei que perdesse por pouco), Donald Trump é o novo líder do "mundo livre". Tal demonstra, inequivocamente, que o eleitorado em todo o Ocidente se encontra enfastiado pelos candidatos habituais, aliás, eu iria mais longe, o neo-liberalismo e o capitalismo selvagem aos quais aderiram os políticos do centro-direita e do centro-esquerda tornaram a vida dos cidadãos num desespero tal que as opções apresentadas pela imprensa como "radicais" já parecerem preferíveis ao que temos agora, afinal, quão pior podem as coisas ficar?

Houve outro factor que aparentemente tem ficado de fora da maior parte das análises e pelo qual quase intitulei esta crónica de "a esquerda de Trump": a esmagadora maioria dos intelectuais de esquerda fizeram campanha contra Hillary Clinton ou, no caso de Slavoj Zizek, endorsaram mesmo a candidatura de Donald Trump como a menos nefasta. De todos os nomes pesados da intelectualidade de esquerda, após a derrota de Bernie Sanders (o candidato Democrata mais qualificado para bater Trump, uma vez que também ele nos chegava de fora do sistema) só Noam Chomsky veio em socorro de Clinton e sempre enfatizando que era meramente "o mal menor." 

Por limitações de espaço não vamos reproduzir as várias citações, mas quem tenha dúvidas por favor consulte as páginas oficiais dos seguintes autores: Michel Chossudovsky, John Pilger, Pepe Escobar, James Petras e Julian Assange. Certo, havia mais de uma centena de candidatos de outros partidos acerca dos quais nem ouvimos falar, o mais provável era que os supracitados, apelando ao não-voto em Clinton, esperassem também que Hillary perdesse por pouco e que esses votos fossem para os dois maiores partidos extra-parlamentares dos EUA, Os Verdes e o Partido Libertário. Trump ganhou, paciência.

Mas como em História é notório que "algo tem que mudar para que tudo fique na mesma", ver Marine Le Pen no número mais recente da "Foreign Affairs" (a revista oficial do regime, por assim dizer) e Donald Trump na presidência dos EUA, demonstra que o Império tenta acompanhar os tempos para não se deixar ultrapassar pela Rússia, é a minha curta análise ainda a quente, os populismos europeus, que tinham a Rússia de Putin como preferência geopolítica e votam em bloco no Parlamento Europeu contra a NATO e contra as sanções à Rússia, fossem de esquerda (5 Estrelas, Podemos, Syriza) ou de direita (FN, UKIP, AfD), agora passam a ter uma opção populista na América de Trump...

Não querendo estragar a festa dos meus camaradas pró-russos que celebram a vitória de Trump, a verdade é que acompanho a política internacional há duas décadas e me tornei num convicto céptico, cínico e até paranóico quanto a esperançosas mudanças de fundo. Só espero estar errado! 

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